A terra antes do nome

A terra antes do nome

A terra, antes do nome, estendia-se em uma vasta e densa floresta, repleta de frutos paradisíacos e afluentes frescos, e não era uma terra vazia. Viviam aqui os povos Kaingang e Guarani. Os Kaingang, pertencentes ao grupo linguístico Jê, ocupavam os planaltos e as matas de araucária, enquanto os Tupi-Guarani habitavam os vales mais quentes e as florestas subtropicais ao longo dos rios. Ambos os povos possuíam, há vários séculos, sociedades complexas com profundos laços com a espiritualidade e a cosmologia. Historicamente, evidências materiais da ocupação indígena no Norte Paranaense ainda existem na região, como a terra indígena de Pinhalzinho, em Tomazina, habitada principalmente pela etnia Guarani, e suas vizinhas: Iwy Porã em Abatiá, Laranjinha em Santa Amélia e São Jerônimo em São Jerônimo da Serra.

Ainda assim, os registros históricos sobre a fundação de Quatiguá, em 1903, por João Ferreira de Paiva, não mencionam os povos originários da terra. A partir do século XIX, a crescente economia cafeeira desencadeou um processo violento de expropriação com o avanço da fronteira agrícola. Os indígenas foram expulsos e marginalizados para outras regiões, fazendo dos “pioneiros” — não desbravadores ou conquistadores, mas beneficiários de uma obra de expropriação anterior à sua chegada — os “secundários”, o segundo povo da terra, o outro.

Apesar do apagamento, é inegável a influência dos povos originários até os dias de hoje. Note que, enquanto o nome da cidade for “Quatiguá”, a dúvida sempre será: “De qual língua indígena origina-se o nome da cidade?” E essa pergunta tem apenas uma resposta: a língua indígena responsável pelo nome da cidade de Quatiguá é a língua Tupi. No entanto, existem duas hipóteses quanto à semântica que o nome carrega: “baía dos quatis” e “fruto que se abre”. A primeira hipótese defende que o nome seria uma junção de “quati”, ou “coati” (mamífero do qual o corpo marrom e rabo listrado de preto lembram um felino, as patas unhudas um roedor e o focinho cumprido um tamanduá) e “guá”, ou “goá”, que significa baía, ou angra. Já a segunda, defende que o nome da cidade é uma alteração fonética da palavra “catinguá”, nome de uma árvore comum por aqui, valorizada pela tintura avermelhada que oferece de sua casca e pela madeira resistente. O nome “catinguá” vem do Guarani e quer dizer “fruto que estoura”, ou “fruto que se abre”. Parte da legislação e dos registros administrativos do Governo do Estado do Paraná, datados de 1890, já mencionavam o nome: “Serro do Quatigual”, para delimitar os limites do Distrito de Jacarezinho. E, mais tarde, com a chegada da ferrovia ao serro, o povo que ali morava adotou formalmente o nome “Quatiguá”.

“Quatiguá”, portanto, não é um nome inventado, nem mesmo dado pelos pioneiros, mas sim herdado da própria terra que eles vieram a ocupar. Ao adotar o nome, um vínculo profundo e duradouro entre o povo e o lugar é reestabelecido. O nome pertenceu primeiro à terra e só depois à cidade.


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