Os vizinhos de Tyler James Robinson o consideravam “uma pessoa normal” que jamais havia dado sinais do que estava por vir. Os pais de Robinson, Matt e Amber Robinson, são republicanos registrados, proprietários de uma empresa de bancadas de granito num subúrbio de St. George, Utah, e exerceram, senão grande, considerável influência na vida do jovem. Fotos disponíveis em redes sociais mostram que o menino já manuseava armas de fogo desde os 11 anos de idade. Época em que seus pais o teriam ensinado a atirar. Amber já chegou a compartilhar nas redes sociais o quão genial seu filho é por conta das notas que tirava na escola, e Tyler, por sua vez, chegou a entrar na Universidade Estadual de Utah, mas saiu logo no primeiro trimestre, em 2021. Na manhã do dia 10 de setembro de 2025, entrou em seu Dodge Challenger cinza e dirigiu por 420 quilômetros até Orem. Em mensagens no Discord com o colega de quarto, ele havia falado sobre um “rifle enrolado em uma toalha” e “um ponto de entrega”.

Tyler não era filiado a nenhum partido político e não havia votado nas duas últimas eleições, no entanto, membros de sua família, mais tarde, revelariam que o jovem havia se tornado “muito político” nos últimos anos e que havia, de fato, demonstrado repulsa por Charlie Kirk, descrevendo o como alguém “cheio de ódio” e que “espalha ódio”. O jovem fez questão de deixar claro que é contra as posições de Charlie, caracterizadas pela defesa de um nacionalismo americano, críticas ao progressismo e alinhamento com a ala mais conservadora do Partido Republicano. Kirk defendia o lema, “America First”, a oposição à imigrantes e a defesa rígida das fronteiras. Fazia crítica à cultura “woke” e à do “cancelamento”, defendia o nacionalismo cristão, a fusão entre Igreja e Estado, e era contra o aborto e os direitos LGBTQIA+. Kirk pregava também o ceticismo em relação às mudanças climáticas e expunha professores que, segundo ele, eram responsáveis por “propaganda de esquerda”. Além disso, (e mais importante) Charlie Kirk era defensor intransigente da Segunda Emenda. Aquela que protege o direito da população e dos policiais de garantia a legítima defesa, seja por meio de manter ou portar armas ou qualquer equipamento, aprovada em 15 de dezembro de 1791. Charlie ficou amplamente conhecido por, logo após tiroteios em massa, divulgar mensagens que desculpam o fácil acesso às armas e legitimam, como culpados diretos, os problemas de saúde mental, declínio da moralidade e valores religiosos.

Às 8h29 da manhã, as câmeras de vigilância da Utah Valley University (UVU) registraram a chegada do Dodge Challenger ao campus. Local em que Charlie realizava, mais tarde no mesmo dia, uma palestra, participando de um debate com estudantes liberais sob uma tenda branca, sentado atrás de um cartaz com a frase: “prove me wrong”. Há 180 metros de distância de Charlie Kirk, Tyler estava posicionado no telhado do Losee Center. Consigo, o jovem Tyler carregava quatro munições. Em todas elas, em um espaço de 7,92×57mm, talhou “mensagens” das quais seu destinatário jamais leria. Na primeira munição, Tyler talhou, “Hey fascist! Cacht!”. Em outra, concordando muito com a primeira, fazia referência à famosa canção de resistência antifascista italiana da Segunda Guerra Mundial, Bella Ciao. Já na terceira, seus interesses começaram a ficar mais ocultos. Na terceira munição, Tyler abandona o ataque direto ao facismo e escreve, “If you read this, you are gay LMAO”. Proposta parecida com a talhagem da última munição, em que Tyler escreve: “*notices bulges* OwO what’s this?”

Note que, “OwO” é um emoticon, geralmente usado por grupos muito específicos da internet, que pode transparecer a ideia de fofura, surpresa ou curiosidade, mas apesar da aparente inocente intenção, o emoticon é frequentemente empregado em contextos de flerte online ou em respostas com conotação sexual. Seu uso pode ser tão sincero quanto irônico. A pergunta final (“what’s this?”) completa a cena, fingindo uma curiosidade inocente e exagerada sobre a “descoberta” feita na ação anterior (“notar protuberâncias”). E o papel que ele já havia escolhido fica mais claro que nunca. Seu papel nessa partida foi o de “performista”, como defende também a professora Whitney Phillips da Universidade de Oregon. Para a professora, diferente das primeiras munições, a última e a penúltima não são mensagens direcionadas à vítima e seus ideais, mas a um público que deseja agradar.

Das três mil pessoas ali presentes, Tyler via apenas Charlie através da mira de seu Mauser Modelo 98. Todas as outras figuras se tornaram um borrão, assim como o vozerio se tornou um ruído branco de fundo. O jovem tentava não tremer, a dureza da coronha já incomodava no ombro e o medo de puxar, antes da hora, o gatilho frio, onde repousava o indicador direito, crescia à medida que seu coração acelerava. Às 12h23 o puxar do gatilho já não era mais veloz que duas batidas cardíacas. E o fuzil disparou. Concluindo, assim, O Assassinato de Charlie Kirk. Tyler conseguiu fugir do local sem muitos problemas, no entanto, cerca de 30 horas depois do assassinato, após confessar o crime à Matt Robinson, seu pai o convenceu a se entregar, como o fez.

Trump foi a primeira “grande” figura a anunciar a morte de Kirk, reforçando o quão mártir deveria ser considerado e solicitando, em posts posteriores, orações pela família: “The Great, and even Legendary, Charlie Kirk, is dead. No one understood or had the Heart of Youth in the United States of America better than Charlie. He was loved and admired by ALL, especially by me”. Ainda no dia 10, Trump gravou e divulgou um vídeo do Salão Oval, onde diz: “Durante anos, aqueles na esquerda radical compararam americanos maravilhosos como Charlie a nazistas… Este tipo de retórica é diretamente responsável pelo terrorismo que estamos a ver no nosso país hoje, e tem de parar agora mesmo. […] A minha administração encontrará cada um daqueles que contribuíram para esta atrocidade… incluindo as organizações que a financiam e apoiam”. Ou seja, Trump defende que está por trás da morte de Kirk, não uma pessoa, mas todo um movimento político (progressista). Um cenário em que, além da conveniência política, faz do Mauser Modelo 98 um dos últimos culpados pelo assassinato, perdendo a última posição apenas para a infância de Tyler James Robinson.

Em entrevista à Fox News, Trump chegou a defender, abertamente, a pena de morte para Tyler: “Espero que ele receba a pena de morte. O que ele fez… Charlie Kirk era a pessoa mais excelente. Ele não merecia isto”.

Apoiadores do então Presidente Trump, como Anna Paulina Luna e Nancy Mace, culpam diretamente os democratas (“os equerdistas” deles), como se percebe em falas como: “Vocês causaram isto!” e “Os democratas são donos do que aconteceu hoje”, dentro de um contexto em que seriam reféns de “uma retórica divisiva e odiosa da esquerda”. Anna chegou a “apelar” (como me sugeriu de vocabulário diversas fontes) a colocada de uma estátua de Kirk no Capitólio dos EUA. Reforçando essa imagem martírica que a Administração Trump vem impondo de Charlie Kirk, enquanto ataca, ao mesmo tempo, a oposição dela. Nick Freitas, um delegado do estado da Virgínia, escreveu: “Não é uma disputa civil… É uma guerra entre visões de mundo diametralmente opostas que não podem coexistir pacificamente”. Outros apoiadores, de outras nações, na Europa e na América do Sul, também se manifestaram: “A esquerda é, em todos os tempos e em todos os lugares, um fenómeno violento cheio de ódio”, escreveu Javier Milei em uma publicação de uma foto sua com Trump.

Uma rápida manobra do movimento trumpista identificou e atacou um vilão que está longe da vida do atirador. A relação de Tyler Robinson com Lance Twiggs, sua namorada trans, é tão importante para o trampismo quanto o luto da família Kirk.


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